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A Cura que vem do Chão de Trancoso

Era com as mãos que Glória transformava o mundo. Mãos de parteira, que acolhiam o primeiro choro. Mãos de cozinheira, que faziam da panela um altar. Mãos de curandeira, que conheciam dos segredos das folhas e ervas.

Conhecida em Trancoso por sua feijoada de domingo e pelo sorriso acolhedor, Dona Glória cresceu cercada por saberes que hoje parecem antigos, mas que continuam a pulsar na memória de sua família. Aprendeu com a mãe, Maricota, o poder das ervas e a arte de cuidar. “Mamãe tinha um dom; ela sabia cuidar e, só de estar perto, já pressentia o que a pessoa tinha”, recorda a filha Baiana.  

Glória tinha braços fortes para moer as ervas no pilão, mas o semblante era de ternura. “Mamãe curava a gente assim, com as ervas”, conta Nelly. “Tínhamos uma farmácia em casa. E essa farmácia era colhida no quintal”, completa Ariana.  

Filhas de Dona Glória e Seu João Grande, as três cresceram entre aromas e rezas. O casal teve dezoito filhos e a casa era ao mesmo tempo consultório cozinha e altar. Nas prateleiras, potes com folhas e raízes; no fogão, caldos fervendo. Tudo tinha um propósito, uma intenção. O boldo era para limpar, o alecrim para acalmar, a arruda para proteger.  

Assim como sua casa, Glória também tinha um cheiro. Quem conheceu ela afirma: Dona Glória tinha cheiro de hortelã-grosso. Erva que ela usava em abundância, tanto na culinária quanto nas curas. “A mão dela cheirava a hortelã grosso. E agora é o nosso cheiro também”, relembra Nelly.  

Assim como sua casa,
Glória também tinha um cheiro

Um OFÍCIO PARA A VIDA

Para Glória, seus ofícios de parteira, benzedeira e cozinheira jamais se separaram. Quando uma mulher dava à luz, ela preparava uma “temperada”, bebida tradicional feita com ervas e cachaça, para ajudar na cicatrização e fortalecer o corpo. Nas festas e almoços, as mesmas plantas que curavam, também davam sabor à comida: o hortelã-grosso temperava a feijoada e o frango, o louro trazia força para o feijão e o alecrim perfumava as refeições. “As ervas são nossos temperos, nossos remédios, nossa cura e nosso aconchego”, afirmam as filhas.  

Nos domingos de sol, sua feijoada reunia vizinhos, parentes e viajantes curiosos. Mas não era apenas a comida que atraía as pessoas, era o seu jeito. Glória possuía o dom raro de acolher. Sabe quando pede para “entregar um beijo” para algum conhecido? Dona Glória o entregava literalmente, com um beijo na bochecha e um sorriso largo. Recebia todos com alegria, escutava as dores e, se fosse o caso, indicava uma planta para ajudar. “Até hoje as pessoas vêm nos procurar pelas ervas”, diz Ariana.  

SABERES E RESISTÊNCIA

Com o passar do tempo, a Casa da Glória tornou-se símbolo de resistência de saberes antigos, um ponto de encontro entre fé, culinária e afeto. Seu quintal era uma pequena farmácia verde, onde cada planta tinha nome e função. E hoje, as filhas reconhecem: “Farmácia plantada em casa é um luxo”.  

Glória não sabia ler nem escrever, mas falava a linguagem mais antiga de todas: a do cuidado. A sabedoria vinha das mãos, da observação e da escuta. Das ervas, extraía remédio; das pessoas, histórias. Assim, fez de sua vida uma ponte entre o que a terra oferece e o que o ser humano precisa. 

Atualmente, suas filhas seguem o caminho da mãe. Ainda preparam garrafadas, ainda cuidam das plantas que crescem no quintal, ainda cozinham feijoada com as ervas medicinais que ela ensinou a usar. “Marcou muito a nossa vida saber que a cura estava no nosso quintal”, dizem. “E fazemos questão de passar isso para os nossos pequenos, para que essa cultura não seja esquecida”.  

Talvez o maior legado de Glória não esteja nas receitas nem nas garrafadas, mas naquilo que permanece invisível: o perfume das ervas no ar, o gesto cuidadoso ao mexer uma panela, o carinho que cura.  

um relicário brasileiro

Uma casa de alto padrão à beira-mar com uma silhueta marcante que lembra um arco vertical preto sobre um fundo branco em Trancoso ou Arraial d'Ajuda.

Prestigiando as riquezas materiais e imateriais de uma região de importância histórica para o Brasil, a NAMPUR seleciona arquitetos e paisagistas renomados para colaborar com criações entrelaçadas aos destinos mais preciosos do Sul da Bahia.